Cultura apresenta; Ella Fitzgerald, a 1ª Dama da Canção
Ella Fitzgerald
(1917-1996) tinha a mesma idade que o primeiro disco de jazz. Também estaria completando cem
anos. Sua ascensão foi rápida: já em 1937 os leitores da revista Down Beat a elegeram como sua cantora
favorita. Na década de cinquenta, o empresário Norman Granz a convenceu a deixá-lo conduzir a sua carreira, até
então administrada por seu representante, Mo
Gale, e o produtor de discos Milt
Gabler. Em 1955, ela deixou a Decca,
companhia fonográfica na qual passara vinte anos e com a qual gravava desde que
começou como cantora da orquestra de Chick
Webb com apenas 17 anos. Ela ainda não sabia, mas a chamada Primeira Dama do Swing estava prestes a
se tornar a Primeira Dama da Canção.
Seus últimos discos não estavam vendendo bem e Ella se
sentia frustrada. Em janeiro de 1956, levada por Granz, assinou contrato com a Verve. O primeiro projeto com o novo
selo foi um LP duplo com canções de Cole
Porter. Somente no primeiro mês, foram vendidos 100.000 cópias. Entre
fevereiro de 1956 – Elvis Presley
acabara de chegar ao topo das listas de mais vendidos – e julho de 1959, Fitzgerald
gravou oito discos com alguns dos melhores títulos do grande cancioneiro
norte-americano: aquele que floresceu desde os anos vinte até meados do século
passado e no qual Bob Dylan cavava o
seu caminho.
Os discos saíram entre 56 e 64, na seguinte ordem: Sings the
Cole Porter Songbook, Sings the Rodgers & Hart Songbook, Sings the Duke
Ellington Songbook, Sings the Irving Berlin Songbook, Sings the George and Ira
Gershwin Songbook, Sings the Harold Arlen Songbook, Sings the Jerome Kern
Songbook y Sings the Johnny Mercer Songbook. Atribui-se a Ira Gershwin o seguinte comentário: ''Eu não sabia como eram boas as
nossas canções até que ouvi Ella cantá-las''. Um último disco seria acrescentado
à série em 1981, lançado pela Pablo
Records e dedicado a um compositor da América do Sul: Ella abraça Jobim
(Fitzgerald Sings the Jobim Songbook).
Depois de sua morte, Frank
Rich escreveu no The New York Times
que, com seus songbooks, a cantora ''realizou uma operação cultural tão
extraordinária como a integração contemporânea de Elvis entre a alma branca e a
afro-americana. Era uma mulher negra popularizando canções urbanas muitas vezes
compostas por imigrantes judeus para um público predominantemente de brancos
cristãos''.
Ella não tinha muita consciência daquilo que sua obra
significou. E nunca deu margem a que o público pudesse achar que a letra de
alguma das canções que interpretava se referisse à sua vida privada, a respeito
da qual evitava falar. Becoming Ella:
The Jazz Genius Who Transformed American Song, biografia que está sendo
escrita pela professora Judith Tick
e que deverá ser lançada em 2018, dará uma atenção especial para todo o
contexto cultural em que viveu a cantora. A mulher que cantava com a
espontaneidade inocente e alegre de quem provavelmente jamais deixou de ser uma
criança. A mesma que dizia que gostaria de ter sido bonita e que afirmava que a
única coisa melhor do que cantar é cantar ainda mais.

