Carne de laboratório feita sem animais já existe, mas é boa?
Startups correm para desenvolver produtos que possam
substituir a carne tradicional tanto para abocanhar o bilionário mercado de
proteína animal, quanto para reduzir o sofrimento dos animais e até o impacto
da pecuário no meio ambiente. Mas elas têm futuro? As carnes que já existem
hoje têm gosto de carne?
Quem já provou, nos EUA, diz que sim. O desenvolvedor de
negócios Joe Paluska, 47,
experimentou um hambúrguer feito 100% de plantas no começo deste ano no
restaurante Cockscomb, localizado em
São Francisco, na Califórnia.
''Parece carne, não um hambúrguer vegetariano. Eu e
minha mulher, que é vegetariana, experimentamos. É difícil descrever por meio
de mensagem, mas o produto tem cheiro e textura de carne. Você inclusive
precisa de um guardanapo para comer porque é bem suculento'', comenta.
A Cockscomb não é
a única, a Memphis Meats, também
localizada em São Francisco, é uma de suas concorrentes. No começo do ano, a
empresa anunciou ter criado as primeiras tiras de frango e pato de laboratório.
Em 2016, a startup também já havia feito bolas de carne sem qualquer tipo de
animal.
Ainda no mercado, conhecido clean meat (carne limpa, em
alusão à energia limpa), estão empresas como Beyound Meat, Clara Foods
e SuperMeat – todas nos Estados
Unidos – e a Mosa Meat, localizada
em Amsterdã, na Holanda. Nestas empresas, a carne é feita a partir de uma
célula-tronco retirada de algum animal por meio de um processo semelhante à
doação de medula óssea. O bicho não precisa sofrer.
''Com uma célula é possível produzir carne para o resto
da vida'', diz Homero Dewes, PhD
em análise de proteínas pelo Instituto
Max-Planck de Bioquímica de
Mastinsried-Munique, na Alemanha. Depois de retirada, a célula passa por um
processo de suplementação em que são colocados diversos nutrientes.
Não é bem vista por
vegetarianos e defensores dos animais
Mas é exatamente por ainda precisar do animal que a carne
não é bem vista tanto por vegetariano e veganos, quanto por protetores dos
animais – apesar de algumas empresas usarem esse discurso.
As células, chamadas de Fetal
Bovine Serum (Soro Fetal Bovino), são retiradas do feto das vacas prenhas. ''Esse fluído é uma fonte riquíssima de nutrientes e estímulos necessários
para o crescimento da célula in vitro (processo biológico feito fora de
sistemas vivos). Ele substitui uma mistura cara e imensa de ingredientes, como
hormônios, sinalizadores celulares, fatores de crescimento e outros'', diz
Dewes.
A Memphis, diz o cofundador e executivo-chefe, Uma Valeti, não utiliza o líquido do
bezerro em seus procedimentos, mas não deu detalhes sobre como o procedimento
funciona, alegando que isso é uma questão comercial. Não há uma fiscalização da
carne para que seja comprovado como ela é feita.
Esta é outra questão que as empresas terão que lidar – a
regulação de seus produtos. Nos Estados Unidos, é o United States Departament of Agriculture (USDA, sigla em inglês)
que regula a comercialização de frango, carne e ovos, e o Food and Drug Administration (FDA, em inglês) que lida com produtos
biológicos, a exemplo de tecidos humanos, células e terapia genética. A carne
feita em laboratório, no entanto, é um produto ''hibrido''.
100% planta
Já a Impossible Foods,
que fornece hambúrguer para o restaurante do começo da matéria, tem uma
proposta diferente das outras empresas – eles querem chegar o mais próximo
possível do sabor da carne tradicional utilizando apenas plantas. ''Nós não
fazemos carne de laboratório. Nossos cientistas fazem pesquisa avançada para
desenvolver hambúrgueres feitos 100% de vegetais, mas com o mesmo gosto da
carne'', diz a chefe de comunicação da companhia, Rachel Konrad.
O grupo divulgou na semana passada o aumento da produção de
seu produto, que custa, em média, US$ 17 (R$ 52). A meta é fazer 435 mil quilos
dele por mês e aumentar para 1 mil o número de pontos de venda nos EUA até o
final deste ano – atualmente existem apenas oito.
Desde 2011, a Impossible recebeu mais de US$ 180 milhões
(cerca de R$ 563 milhões) de investimentos do filantropo Bill Gates e da Google
Ventures – braço financeiro do Google
para investir em startups –, de acordo com o CrunchBase, banco de dados que mostra os históricos de
investimentos em startups.
''Você pode pensar nisso como o nascimento de uma nova
indústria que vai transformar o sistema de comida de hoje em dia'', disse o
fundador Patrick Brown, que é
ex-professor da Universidade Stanford,
durante uma coletiva de imprensa realizada em 2011 em sua fábrica, em Oakland,
Califórnia.
O mercado de proteína animal movimenta só nos EUA US$ 200
bilhões (cerca de R$ 626 bilhões) por ano. Além disso, a pecuária é responsável
por 14,5% da emissão de gases do efeito estufa, segundo a Organização das Nações Unidas para
a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Preço ainda é alto
Para fazer clean meat, por exemplo, a Memphis gastou US$ 9
mil (cerca de R$ 28 mil). A mesma quantidade de frango, para efeito de
comparação, custa apenas US$ 3,22 (cerca de R$ 10) nos EUA.
E o preço, apesar de parecer caro, já é um avanço. Isso
porque o primeiro hambúrguer artificial, feito em 2003 pelo pesquisador Mark Post, da Universidade de Maastricht, em Amsterdã, na Holanda, custou US$ 300
mil (cerca de R$ 939 mil).
''Entretanto, espalhando os custos em bilhões de
hambúrgueres, bem como incorporando técnicas de produção em massa, é possível
reduzir o custo'', explica Shaked
Regev, fundador e diretor executivo da The
Modern Agriculture Foundation – organização sem fins lucrativos que faz
estudos sobre alternativas para a indústria global de comida.

