O ''jogo da baleia azul'' e a tragédia de Maria de Fátima
A morte da estudante Maria
de Fátima da Silva Oliveira, de 16 anos, que morava em Vila Rica, uma
pequena cidade a 1.270 km de Cuiabá (MT), lançou luz sobre uma brincadeira que
está preocupando os pais: o ''Desafio da Baleia Azul'' (ou Blue Whale Game). Trata-se de
um suposto jogo de incentivo ao suicídio, que teve origem nas redes sociais
russas, em que adolescentes são previamente selecionados para participar de um
desafio de 50 dias, cumprindo tarefas diárias que incluem automutilação, sendo
a última delas a morte.

* Na imagem, Maria de Fátima da Silva Oliveira, de 16 anos, que morreu ao participar do jogo baleia azul na internet, em Cuiabá (MT)
Maria de Fátima foi encontrada morta na terça-feira (11)
dentro de uma represa no bairro Inconfidentes, na região central da cidade.
Saiu de casa sozinha, vestindo apenas a roupa do corpo, por volta das 3h15,
enquanto pais e irmãos dormiam. Deixou o celular em cima da cama (bloqueado com
senha), não levou dinheiro. Antes de entrar na represa para o mergulho sem
volta, deixou os chinelos na beira.
A Polícia Civil
(PC) da cidade abriu inquérito para investigar se a morte da menina está, de
fato, relacionada ao jogo que tem tirado o sono de pais de adolescentes nas
últimas semanas. De acordo com o delegado André
Rigonato, responsável pela investigação, nenhuma hipótese está descartada,
mas há fortes indícios de que a jovem tenha se envolvido nesse jogo: ela deixou
duas cartas onde falava sobre as regras e a cronologia das ações a serem
cumpridas e também apresentava alguns cortes nos braços e coxas.
''A investigação ainda está no começo. Foi feita a perícia no
local e solicitamos exames necroscópico e toxicológico para atestar a causa da
morte, para saber se ela não usou nenhum medicamento ou alguma substância.
Apreendemos as cartas para análise e o celular da jovem. Pela dinâmica do caso,
a princípio, tudo indica que se trata de suicídio'', afirmou.
De acordo com Rigonato, ao menos dois grupos de WhatsApp da cidade estão sendo
monitorados pela polícia para tentar identificar quem seriam os ''curadores'' da
brincadeira. Induzir, instigar ou auxiliar o suicídio é crime, com pena
prevista de dois a seis anos de prisão. Além disso, a Polícia Militar (PM) está preparando uma série de palestras
educativas que serão ministradas nas escolas da cidade a partir da semana que
vem. O objetivo é orientar os pais e professores a observarem os sinais e
prevenir que outros casos aconteçam.
Os sinais
Mônica Strege Médici,
professora de ciências e biologia na escola onde Maria de Fátima estudava,
disse que a jovem era uma aluna excelente e raramente tirava notas abaixo de 8. ''Sem dúvidas, era uma das melhores alunas da turma. Adorava a disciplina e
fazia sempre as tarefas'', diz a professora. As amigas de sala, que pediram para
não se identificar, contam que ela costumava ser extrovertida, sorridente e
brincalhona, mas que vinha mudando o comportamento desde o final do ano
passado.
''Ela estava mais introvertida, não sorria mais, não saía da
sala de aula na hora do intervalo. Não queria mais conversar, ficava só no
mundinho dela. Uma vez chegou a dizer que a vida não tinha mais sentido algum'',
diz K.S., de 16 anos. ''Ela nunca foi superficial, sem dúvida, era das mais
inteligentes. De repente, começou a ficar calada. Estamos em choque'', afirmou
J.M., outra amiga.
Dentro de casa também havia sinais de que algo estava
errado. Segundo Antônia Carlos da Silva,
de 39 anos, mãe de Maria de Fátima, a jovem tinha alguns cortes nos braços e
nas coxas há cerca de dois meses. Além disso, a mãe chegou a encontrar um papel
em que a estudante havia escrito com a própria letra regras a serem cumpridas,
como ''abrace os seus pais e diga a eles que os ama'', ''peça desculpas'', ''tire a
sua vida''. O documento está com a polícia.
Antônia disse que em nenhum lugar do papel havia referência
ao jogo baleia azul, mas disse que tinha uma cronologia a ser seguida.
Assustada, ela chamou a filha para conversar sobre o assunto. ''Perguntei o que
era aquilo e ela me respondeu que não era nada. Que era uma bobagem. Disse: 'você acha que vou me matar, mãe?''', conta Antônia. ''Perguntei se ela precisava
de ajuda e ela disse que não. Na hora, eu preferi acreditar nela. Aquilo não
podia estar acontecendo comigo'', diz a mãe.
Uma semana se passou e Antônia continuava aflita, preocupada
com a filha, que não dormia mais direito e passava as noites acordada com o
celular e o fone de ouvido. Mas não
sabia o que fazer. Na noite de segunda-feira (10), Antônia dormiu antes das
22h. A filha estava no quarto, no celular. Paula, a irmã mais velha que dividia
o quarto com Maria de Fátima, também foi dormir. Acordou às 3h04 para desligar
o ventilador. A irmã estava lá ainda, deitada, mas acordada. Paula voltou a
dormir, mas acordou novamente às 3h38, quando o celular tremeu com uma mensagem
de texto da operadora. Ao olhar para o lado, viu que Maria de Fátima não estava
mais na cama.

* Na imagem, postagem feita pela adolescente Maria de Fátima da Silva Oliveira, encontrada morta em represa: ''última foto''
Antônia foi acordada na madrugada pela filha mais velha, que
avisou que a irmã tinha fugido. ''Não sei te explicar, mas naquela hora eu pulei
da cama e meu coração de mãe me disse que minha filha estava morta''. A família
saiu de madrugada em busca da menina, mas não a encontrou. Procurou a polícia,
os amigos da escola, o namorado, o Conselho
Tutelar. À polícia o namorado disse que na noite de segunda, por volta das
22h, Maria de Fátima tinha dito que ''morreria afogada'', mas ele não teria
percebido que isso era um sinal.
Ainda na segunda-feira, às 18h15, Maria de Fátima
desbloqueou a irmã de uma rede social e mandou para ela o áudio da música Trem
Bala, de Ana Vilela. Em um dos
trechos a música diz: ''Segura teu filho no colo, sorria e abraça os teus pais
enquanto estão aqui, que a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só
passageiro prestes a partir''. Cinco dias antes, ela postou uma foto em uma rede
social com a legenda ''última foto'' ao lado de um emoticon chorando.
''Eu só quero que outros pais não passem pela dor que estou
passando. Que não chorem o que estou chorando. Precisamos estar mais presentes
na vida dos nossos filhos. Eu quero que o caso da minha filha sirva de alerta,
pois outros jovens podem estar envolvidos nisso'', disse a mãe.
Aumento de casos
Segundo o psiquiatra Daniel
Martins de Barros, coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Instituto de
Psiquiatria da USP, o número de suicídios em jovens está aumentando em todo
o mundo e ninguém ainda sabe explicar a razão. Em 90% dos casos, diz, a pessoa
tinha algum tipo de transtorno mental, principalmente depressão.
Para ele, o suposto jogo baleia azul é apenas o pano de
fundo para um cenário de aumento de casos de suicídio entre jovens que se
repete há anos. ''Há seis meses, o jogo do momento era o da asfixia. Agora é o
da baleia azul. Daqui a um tempo terá um novo. Não estou dizendo que o jogo não
existe, mas esquece o jogo. A questão aqui é: o que vamos fazer para evitar?
Esse é o ponto'', afirmou.
Para Barros, o ''pânico moral'' criado em torno do suposto
jogo reflete os medos dos próprios adultos. ''Esse pânico fala sobre nós, os
pais. É o gap [lacuna] geracional. Todo adulto sabe que não está dando a devida
atenção para o jovem. E isso demonstra a dificuldade que os pais têm de entrar
no universo do filho'', diz.
Segundo Barros, casos como esse chamam a atenção para a
necessidade urgente de os pais saberem identificar os sinais e buscar ajuda
quando necessário. ''Temos que quebrar o tabu da depressão. Depressão é uma
doença, como catapora, como pneumonia. Ao perceberem sinais de mudança de
comportamento nos filhos, busquem ajuda e evitem o sofrimento. A depressão é
tratável e curável''.
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